Retomada



Ao que tudo indica, finalmente poderemos retomar o processo criativo de YELLOW já com a data de estreia fechada. Ganhamos o patrocínio do Banco do Brasil no início de 2017 e, no entanto, até agora não tínhamos previsão de estreia por questões orçamentárias e de falta de pauta. Temos uma reunião na próxima semana visando fechar a pauta de estreia, bem como afinar questões de produção.

Com leveza, vou me deixando atrair novamente por esse universo. Todo o processo de começar, parar, voltar e parar novamente a criação dessa peça foi bastante danoso a mim. Não só a mim, claro, mas escrevo em primeira pessoa. Depois de muitos inícios e interrupções, decidi que só voltaria ao YELLOW caso fosse para, de fato, estrear. Essa decisão, intencionada, foi bastante salutar, continua sendo. Permitiu que eu me afastasse um pouco e, agora, quando esboço um retorno, sinto-me melhor, mais tranquilo e disponível.

Algumas linhas, contemporâneas entre si, sustentam esse processo: a linha da produção e a linha da criação. Uma influi na outra e a saúde ou doença que, porventura, surja pelo caminho, em uma dessas linhas, imediatamente afeta os rumos da outra linha, desorienta os sentidos todos. Quando falo dessa interrupção que fiz, afirmo que a fiz porque senti que precisava parar de pensar as questões criativas à sombra dos tormentos de produção. A criação, às vezes, mais do que planejamento, é pura disponibilidade. Saber-se disponível basta para criar uma nova peça de teatro.

Nesse sentido, agora, ao me revistar e revisitar, percebo alegremente que sei de pouco ou quase nada. Aliás, de tudo o que eu sabia, pouco quero rever, pouco quero reaver. Não vou retomar discussões e especulações. Deixo passar para perceber as coisas que - de fato - se fizeram carregar junto a mim. Quando me imagino em sala de ensaio com o Márcio, visualizo o seguinte: um papel na mão dele, outro - igual - na minha. Eu numa cadeira, ele de pé, pelo espaço. Em nossos papéis, um jorro de palavras que eu teria escrito um ou dois dias antes do ensaio. E assim o jogo começaria.

Visualizo, imagino, a palavra trepidando, o espaço nu pedindo (ou não) por preenchimento. Matéria e imaterialidade dançando juntas: carne, pele, cabelo, ar, luz, som. Um ou outro workshop com um(a) pesquisado(a) sobre um determinado assunto. Trabalho de composição: atualidade, memória e imaginação. Labor voltado à criação de quadros. Quadros em movimento. Um balé dramatúrgico e corporal. Uma luz fina. Um gesto grosso. O verbo na boca, o verbo do corpo.

Que potência poder criar não. Que delícia voltar a poder criar sim.

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