Qual diferença ele possui?



Sigo me encontrando com Márcio, agora com mais frequência. Foram dois encontros nesse mês de dezembro e pretendemos seguir até o fim do ano. Em janeiro, é previsto começarmos algum tipo de prática envolvendo ações na cidade. Não sei ainda. O que estamos tramando? É tanto. A certeza é apenas uma: quanto mais nos encontramos presencialmente mais desdobramos essa criação. E se eu escrevo agora, neste blog, é mais para frisar o que já ficou marcado em mim.

Hoje íamos ler alguns trechos de textos e acabamos não fazendo nada disso. Ficamos um bom tempo conversando sobre alguns pontos do percurso desse ser. Contei ao Márcio que sigo escrevendo uma cronologia de fatos vividos por nosso personagem (desde 1974 até 2000 e vinte e poucos). Dentre esses fatos, para além de detalhes específicos da vida da personagem (o dia em que passou pela situação tal), encontram-se também marcos da história da humanidade, porém, nem sempre fatos emblemáticos, às vezes apenas situações como o dia em que um jovem profanou uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida no Brasil.

Quanto mais tornamos específico o caminho do personagem, quanto mais os detalhes, mais conseguimos vislumbrar alguma existência do mesmo.

Em nosso encontro, cheguei munido do livro HIPERESPAÇO de Michio Kaku. Foi o Gunnar Borges que me emprestou esse livro. Na época, faz uns meses, eu estava querendo entender mais o assunto das dimensões de espaço e tempo. Não entendo nada, mas sigo investigando. Ler teorias da física complexifica ainda mais a coisa e parece tornar a poesia ainda mais possível. Uma contradição, talvez, mas sigo mexendo com tudo.

O interesse nas dimensões de espaço e tempo veio quando eu comecei a perguntar o seguinte: qual é a diferença que esse ser extraterrestre possui em relação aos humanos? A primeira delas é evidente, diz respeito à sua cor amarela. Isso o torna diferente, porém, é uma diferença óbvia, visível, étnica mesmo. Nada estranho ao nosso mundo.

Por que, eu poderia perguntar, por que a necessidade de uma diferença ainda mais marcada? Ora, se YELLOW BASTARD nasce como uma investigação da intolerância humana, eu preciso oferecer contraponto. Veja: não para fazer mero drama, mas para - justamente - operar dialeticamente, oferecer contraponto visando uma síntese mais complexa: tese, antítese, síntese. Talvez.

De qualquer forma, para além da pele amarela, há algo nesse ser que extrapola a condição humana, que a assusta justamente por ser diferente. Há um saber, uma consciência sensível, uma consistência muito afetiva, estrangeira (que lembra Jesus Cristo) e que diz respeito unicamente ao modo pelo qual esse ser sente. Não é uma questão cultural, de criação, por exemplo. É uma questão fisiológica, interna, do corpo. Diz respeito a uma sensibilidade (uma filosofia prática).

Sobre essa capacidade/habilidade de YELLOW, eu poderia arriscar algumas hipóteses: quando informo que há outra sensibilidade, retomo a discussão sobre as dimensões. Eu acho que esse ser é menos eu e mais o outro. Ele é mais passagem, mais caminho do que ser centrado e individuado. Fiquei pensando qual diferença seria de fato ameaçadora à raça humana? Ora, uma existência que não se acha o centro do universo seria uma ameaça ao homem. Uma existência que não vê no "eu" a salvação do planeta, sem dúvida, é uma grande ameaça (sobretudo porque tal existência é praticamente uma negação muito contundente de tudo o que nos acostumamos a ser e a buscar).

A sensibilidade de YELLOW é a de ser passagem, é a de ser caminho, para o outro, para outras narrativas; narrativas da alteridade. A sensibilidade dele - que é quase um super poder - é para o fora, não para si, não para o dentro apenas. É, desde já, uma crítica ao antropocentrismo. Ele tem a habilidade de ser frequentado pelas coisas mais do que apenas ser alguém. Ele, nesse sentido, vive a vida em tempo espiralado, em simultaneidade, junto ao eterno retorno.

O que já foi e o que virá coexistem nesse instante presente em que se é e no qual se está. A guerra do passado vive agora no futuro que nem veio, mas que já está aqui. YELLOW BASTARD zomba das cronologias e concatenações e causalidades todas. YELLOW tem desinteresse por arranjos lógicos que, talvez, predeterminem o todo.

Para fazer nascer essa criação, é como se eu tivesse que me pergunta o que há no ser humano que eu precise exterminar mesmo.

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