Introdução de Diferença - Parte 2

Não esperava voltar assim tão cedo a essa mesma discussão. É só que ontem isso ficou martelando meus pensamentos. Chovia, eu fumava um cigarro, e me peguei novamente pensando nessa coisa que já é quase um refrão em minha cabeça: introdução de diferença, introduzir diferença, fazer da criação artística um projeto de diferenciação do que é a realidade.

O que tais afirmações abrem?

A ingenuidade desse refrão parece ir morrendo pouco a pouco. Tento desenvolver um pouco mais essa proposição mais clara e estruturante do que seria uma imagem poética, a partir de Aristóteles (e, em especial, da tradução que Paulo Pinheiro fez de sua POÉTICA). Retomo: o poema mimético - uma dramaturgia, por exemplo - não apresenta a vida tal como ela é (na realidade), mas sim uma imagem poética que um poeta (o dramaturgo) faz dessa realidade.

Uma dramaturgia anuncia não aquilo que a vida propriamente é, mas, com ênfase, aquilo que ela ainda não foi, aquilo que ela ainda pode vir a ser.

É bonito, sem dúvida. É inegavelmente estimulante, mas, de fato, como? Ou, de fato, o quê?


Volto-me então à narrativa, à fábula (e preciso estudar mais sobre isso). A diferença de que tanto falo seria apenas do "conteúdo" da trama ou, em adição, poderia ser também diferença em sua "forma". Forma e conteúdo, mais uma vez. Quero dizer: a fábula desse extraterrestre se revela diferente da nossa realidade hoje apenas por aquilo que ela apresenta dessa existência ou o modo através do qual ela revela esse personagem (e seu percurso) é já também alguma diferença em si?

A resposta é óbvia: conteúdo e forma são agentes da diferença; catalisadores de diferenças, de transformações e reformas. Porém, mais uma vez, quais? O quê?

Sigo com três atos. Três unidades de ação. Não saberia dizer se estão em ordem cronológica ou não, e isso influencia tudo o que virá. No entanto, são três atos para concatenar essa fábula ou são três atos para impor a diferença à ordem do dia? Pensar os atos como instauradores de diferença, assumir a busca e o risco do buscar.

Talvez apenas eu consiga entender - mais ou menos - isso que escrevo, porém, o gesto de escrever neste blog dinamiza muita coisa em mim e para mim. Penso nos atos: denúncia, resposta e proposta. Três palavras que retiro daquilo que Eleonora Fabião afirma sobre a prática da performance em uma entrevista dada ao repórter Fábio Freire: "A performance surge no cenário pós-guerra como uma denúncia, uma resposta e uma proposta".

Eis a diferença. Não basta denunciar nem responder, é preciso propor. Por isso três atos. Sobretudo, porque até o presente momento, as criações do Teatro Inominável estiveram muito concentradas - e mesmo ensimesmadas - na denúncia, em tocar nos horrores de nossa época e ponto. Obviamente, seria impossível não fazer dessa maneira, operamos tudo isso criticamente. Uma mudança na duração de um gesto abre uma dimensão bastante reflexiva sobre tal gesto. Uma repetição deflagra perguntas inquietantes sobre um determinado assunto. Porém, é necessário mais porque quando penso em uma proposta não penso em uma hipótese, penso mesmo numa realização.

Propor é fazer acontecer; propor é ação que age.

O que YELLOW BASTARD propõe? O que efetiva? O que do mundo denuncia, a que mundo essa criação responde e que mundo outro ela propõe?

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