Espaço Ficcional

Acabo de chegar de um encontro com o ator Márcio Machado. Um mês após a finalização do roteiro do curta-metragem (prólogo) de YELLOW BASTARD, nos encontramos para darmos continuidade e aprofundar o processo de criação da peça (com estreia agendada para junho de 2018 no Rio de Janeiro).

Para além das inúmeras anotações que fiz em meu caderno, destaco uma: a dimensão ficcional. É uma criação que precisa ser gastada na sua dimensão fabular (inventada e inventiva). As certezas, nesse momento da criação, morrem todas. É preciso se perguntar tudo novamente e, pouco a pouco, decidindo alguns aspectos dessa história.

Vamos contar uma história. Sim, uma história, outra história. Um extraterrestre que vive no planeta Terra de 1968 a 2018. Nesse percurso, entre humanos, ele vive o desafio de se tornar quem ele de fato é - um extraterrestre, marciano, pele amarela - e também a crueldade de ser alvo da intolerância humana. Conversamos muito sobre familiaridade e estranhamento, sobre identificação e estranheza/transformação, sobre Aristóteles e Bertolt Brecht.


Auschwitz: rede de campos de concentração no sul da Polônia.


Sobretudo, percebo: não é uma criação onde um ator vai falar um texto, performar a dramaturgia. É um trabalho de composição de um personagem enredado dentro de uma dimensão ficcional. Específica da fábula. Ou seja: onde ele está? Está preso? É refém de alguém ou algo? Ele fala para quem e a partir do quê?

Volto à importância que julgo ter a situação. A situação explode e apresenta o personagem e seu drama. O personagem não se mostra para o espectador, é o espectador quem o recebe a partir do drama em acontecimento, em situação. Ou seja: se ele está aprisionado, se começa a "peça" preso, numa cela "qualquer", é a partir desse contexto - dessa situação - que sua fala explode e o espectador pode então ler o drama, vê-lo acontecer.

Lembro-me dos campos de concentração. Lembro-me de Auschwitz. Lembro-me da inteligência humana a favor do extermínio humano. Lembro do vínculo entre as palavras DIFERENÇA e INTOLERÂNCIA. Há uma proporção indireta, me parece: quanto menos se é quem se é, maior a intolerância. Disse ao Márcio: primeiro conosco, por sabermos que somos algo que não aceitamos (por conta da moral, da tradição, da família e religião) e nos repudiamos por isso; na sequência, a intolerância que primeiro nasce contra si próprio, resvala ao outro, pois o outro não pode ser alegremente quem eu sou.

Eis o cerne, me parece. Por enquanto, eis um cerne.

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