O que uma criação pode mover?

Tenho observado, com algum espanto, como uma criação teatral pode mover o nosso olhar e a nossa sensibilidade em direção à vida cotidiana. Por certo, movemos - nós, artistas - cada nova criação. No entanto, é precioso reconhecer o que pode mover uma criação para além da criação em si.

Os olhos passam a ver - ou, ao menos, a espreitar o interior que mora dentro das coisas. A busca pela verdade se desmancha e o caminho vira instante, instantes sucessivos e que não carecem, ainda, de um contorno preciso. Uma nova criação artística move em quem a cria essa consistência de processo em que o mais vital é justamente a multiplicidade de rumos e sentidos, a despeito de um inevitável fechamento.

Não há nada para ser encontrado. Não ainda. Uma criação nos move à produção de outro corpo, não apenas à produção de uma peça de teatro. Solicita em nós, ainda que tal consistência possa ainda não existir, solicita outro modo de operar com desejos e indefinições. Tudo - mesmo - vira jogo, tudo diz respeito à criação.

Neste caso, Yellow Bastard, não importa o que já descobrimos. Nem o que planejamos, o que já foi vivido quiçá o que está por vir. Ainda hoje só o que importa é o desejo inventivo e ele se traduz transparentemente feito um caminho, um ir que não precisa chegar porque ir é já estar. Ir é criar.

Um monólogo teatral. Teatral? Monólogo? Uma ação acontecendo na presença de outras e outros. Um ator, uma grande equipe, um gesto é o que vamos compor. Vamos compor um gesto. Um gesto é o que estamos compondo. Um dizer. Uma fala. Uma treta ao mundo destinada.

Ou: um destino a esse mundo treta, mundo tretado, mundo coisa, mundo coisificado. Uma outra e nova possibilidade em meio à falência das possibilidades.

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