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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Introdução de Diferença - Parte 2

Não esperava voltar assim tão cedo a essa mesma discussão. É só que ontem isso ficou martelando meus pensamentos. Chovia, eu fumava um cigarro, e me peguei novamente pensando nessa coisa que já é quase um refrão em minha cabeça: introdução de diferença, introduzir diferença, fazer da criação artística um projeto de diferenciação do que é a realidade.

O que tais afirmações abrem?

A ingenuidade desse refrão parece ir morrendo pouco a pouco. Tento desenvolver um pouco mais essa proposição mais clara e estruturante do que seria uma imagem poética, a partir de Aristóteles (e, em especial, da tradução que Paulo Pinheiro fez de sua POÉTICA). Retomo: o poema mimético - uma dramaturgia, por exemplo - não apresenta a vida tal como ela é (na realidade), mas sim uma imagem poética que um poeta (o dramaturgo) faz dessa realidade.

Uma dramaturgia anuncia não aquilo que a vida propriamente é, mas, com ênfase, aquilo que ela ainda não foi, aquilo que ela ainda pode vir a ser.

É bonito, sem dúvida. É inegavelmente estimulante, mas, de fato, como? Ou, de fato, o quê?


Volto-me então à narrativa, à fábula (e preciso estudar mais sobre isso). A diferença de que tanto falo seria apenas do "conteúdo" da trama ou, em adição, poderia ser também diferença em sua "forma". Forma e conteúdo, mais uma vez. Quero dizer: a fábula desse extraterrestre se revela diferente da nossa realidade hoje apenas por aquilo que ela apresenta dessa existência ou o modo através do qual ela revela esse personagem (e seu percurso) é já também alguma diferença em si?

A resposta é óbvia: conteúdo e forma são agentes da diferença; catalisadores de diferenças, de transformações e reformas. Porém, mais uma vez, quais? O quê?

Sigo com três atos. Três unidades de ação. Não saberia dizer se estão em ordem cronológica ou não, e isso influencia tudo o que virá. No entanto, são três atos para concatenar essa fábula ou são três atos para impor a diferença à ordem do dia? Pensar os atos como instauradores de diferença, assumir a busca e o risco do buscar.

Talvez apenas eu consiga entender - mais ou menos - isso que escrevo, porém, o gesto de escrever neste blog dinamiza muita coisa em mim e para mim. Penso nos atos: denúncia, resposta e proposta. Três palavras que retiro daquilo que Eleonora Fabião afirma sobre a prática da performance em uma entrevista dada ao repórter Fábio Freire: "A performance surge no cenário pós-guerra como uma denúncia, uma resposta e uma proposta".

Eis a diferença. Não basta denunciar nem responder, é preciso propor. Por isso três atos. Sobretudo, porque até o presente momento, as criações do Teatro Inominável estiveram muito concentradas - e mesmo ensimesmadas - na denúncia, em tocar nos horrores de nossa época e ponto. Obviamente, seria impossível não fazer dessa maneira, operamos tudo isso criticamente. Uma mudança na duração de um gesto abre uma dimensão bastante reflexiva sobre tal gesto. Uma repetição deflagra perguntas inquietantes sobre um determinado assunto. Porém, é necessário mais porque quando penso em uma proposta não penso em uma hipótese, penso mesmo numa realização.

Propor é fazer acontecer; propor é ação que age.

O que YELLOW BASTARD propõe? O que efetiva? O que do mundo denuncia, a que mundo essa criação responde e que mundo outro ela propõe?

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Superfície - Landscape


Ontem, eu, Andrêas Gatto e Márcio Machado fomos ao cinema assistir "Blade Runner 2049". Foi uma interessante experiência, talvez mais por aquilo que nossas conversas anunciaram sobre YELLOW BASTARD do que propriamente sobre o filme, que é bastante interessante. O que escrevo nesta manhã fria e um pouco chuvosa de outubro é sobre tudo aquilo que, pouco a pouco, sem esforço, vai se firmando em mim sobre esta nova criação.

Três atos? Divisão da ação: clausura, depois liberdade, depois extra-Terra. Primeiro ele enclausurado. Depois ele quando conhecendo e tocando o horror humano. Por fim ele em sua casa de origem, em Marte. Ou seja: o espaço determina a (escrita da) ação, o espaço situa as ações: situações. Assim, a dimensão temporal se modifica. Não é linear a sua cronologia. Ela começa com ele na prisão (não teríamos um prólogo). Depois resgata vivências dele antes de ser preso. E, por fim, ele já liberto do planeta Terra, ele em Marte.

No que me serve essas especulações sobre a divisão da ação? Elas me ajudam a compor, pouco a pouco, o plano da dramaturgia. Não me deixam cair na armadilha do detalhe. Aos poucos, por conta desse jogo de esboço da ação, vai se anunciando justamente o que é importante nessa fábula. O que precisa ser dito? Sempre para fora. O que precisa ser dito e em qual momento? O que o leitor-espectador já sabe? Um balanço entre sensação e informação.

Algumas coisas se anunciaram:

- A questão com as dimensões do universo: a princípio, nós, seres humanos, acessamos apenas quatro, mas parece existir cerca de dez;

- Se esse personagem, por ser nascido em Marte, possui outra sensibilidade (eis aqui o poder do super herói), essa sensibilidade outra (estrangeira, distinta do ser humano) é justamente o nosso fazer artístico, é justamente a arte, o teatro, a poesia. Assim, nosso personagem tem algo que o homem terráqueo não tem: um outro tipo de sensibilidade (eu diria, arriscando e me lançando um problema, que há algo aqui da "ficção" de Rancière, ou seja, este personagem é alguém com altíssima disponibilidade para se colocar no lugar do outro, para mudar de posição);

- Através dessa sensibilidade, ele entra em contato com alguns acontecimentos da história (não apenas recente) da humanidade e tais acontecimentos confirmam o seu estrangeirismo: ele fica completamente amarelo ao se confrontar com o horror humano. Quanto mais horror, mais ele se reconhece a si mesmo: afirmação trágica da vida, Nietzsche;

... > DIMENSÕES > SENSIBILIDADE RADICAL > ESTRANGEIRISMO > ...

Quanto mais se é sensível mais se é estranho à condição humana.

E ele é o auge dessa sensibilidade-estranheza. Ele não é humano e essa não é a questão, a questão que se anuncia é: o que é o humano aos olhos desse ser? Quem é o ser humano aos olhos dessa outra espécie que não é terrestre, que não é humana?

As abstrações precisam cair. Marte é o deus da guerra. Quem inventou isso? Talvez este nosso marciano não queira guerra, não esteja preocupado em dominar nem colonizar. Outras narrativas, por favor.

Vasculhar os mitos.
Profaná-los.
Que abismo.