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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Introdução de diferença

O que sabemos é pouco ainda: um extraterrestre, um marciano, habitando o planeta Terra faz quatro décadas, agora vai retornar ao seu planeta de origem, mas, antes de a ele retornar, deixará algumas palavras ao ser humano. É isso o que temos. E o que mais?

Pensamos sobre a intolerância humana. Queríamos e queremos dar a ver algo sobre a intolerância do homem. Isso nos fez pensar a história da humanidade, tão preenchida desses casos de violencia e destruição, morte e ódio. Certo. E mais o quê?

Seria preciso então pensar o modo pelo qual essa história seria contada e inventada. O modo como um procedimento que, desde já, anuncia os conteúdos todos. Eu quero dizer: a coisa está no modo pelo qual ela será apresentada. Pensemos: se ficarmos presos apenas a esse relato desse extraterrestre, pouco abriremos de diferença em relação ao que ele poderia, inclusive, nos dizer sobre a raça humana. Porém, se especularmos outra forma que não apenas a do relato, então, inevitavelmente, veremos outro tipo de assunto brotar em nossa criação.

Ainda não me faço claro. Eu quero dizer que a diferença está, primeiramente, no modo pelo qual essa fábula será apresentada. Se quisermos que tal fábula atualize algumas características da condição humana, então, inevitavelmente, teremos que ousar outros modos de contar. Porém, por que essa exigência de introduzir uma diferença?

Isso me chega através do Aristóteles. Para ele, a mimesis não seria uma reprodução da realidade tal como ela é, mas uma operação técnica e se produção - uma poiesis - que introduz nessa mesma realidade uma diferença. Ou seja, a obra de arte não é mera fotografía do real, mas, justamente ao contrário, um espaço-tempo que transforma esse mesmo real.

Por isso me pergunto: onde está a diferença em YELLOW BASTARD? Para além de termos um marciano falando à raça humana, onde está a diferença? Seria em sua sensibilidade (poética) para ler o humano? Seria a sua linguagem e o modo pelo qual ele aprendeu a nossa?

A partir dessa semana, início de agosto de 2017, começaremos a nos encontrar semanalmente para começar - de fato - essa criação. Este blog, então, passará a ter mais registros do caminho criativo.

sábado, 24 de junho de 2017

Há vegetação em Marte? Estamos em Marte?



Eu estava em Buenos Aires, na Argentina, numa festa. No quintal, próximo ao salão de festas do apartamento em que acontecia a festa, vi essas luminárias sobre o gramado. De imediato me veio Yellow Bastard. Tirei essas fotos e fiquei pensando se a vegetação não existe lá também, lá em Marte. O que sabemos de Marte é um projeto que domestica o nosso real saber sobre Marte? Suspeito um pouco. Não sei se não tem água lá. Outra coisa: o que importa Marte - em nossa criação - ser como é Marte na realidade? Alguém entre nós conhece Marte de fato? E mesmo que esse alguém soubesse tudo de Marte, estamos criando uma parada, correto? Podemos fazer dela e com ela aquilo que acharmos importante fazer. Desde que com algum propósito. Não importa se tem ou não vegetação, importa, antes, que a gente se pergunte: para que essa história? Para que essa peça? Para que Marte? Para quê? Para quem? 

De volta às intuições

Com a calma de quem nada quer fazer brotar, a partir de agosto começaremos a nos reunir uma vez por semana para alimentar a criação dessa nova criação do Teatro Inominável. Até o presente momento, já foram vários encontros, mas tudo sem eixo, tudo meio solto (apesar de termos desejado continuar a criação, isso nunca foi possível). Agora, no entanto, será.

Temos um patrocínio e uma data para estrear: junho de 2018. Não sabemos muito do que se trata a coisa toda, apesar de sabermos já um bocado de coisas. Mas, nesse caso, no caso de Yellow Bastard, saber é o que menos importa agora. É preciso voltar às intuições para resgatar - sem muita força - aquilo que brotou feito arrepio. Para que possamos compor não um eixo feito de ossos ou músculos, mas apenas de sinapses e nervos. Estilhaços de imagens e arrepios.

Como conceber a consistência de uma nova criação artística, teatral? Do que ela é feita? Do que queremos que ela seja composta? São perguntas interessantes de se fazer. Quais ingredientes entram em nosso jogo? Podemos escolher todos ou devemos ceder ao imprevisível para que entre nós pouse também aquilo que não foi por nós escolhido? Voltar às intuições para preservar e cuidar dos arrepios.

Sempre que escrevo essa palavra - intuição - outra palavra pousa em mim: arrepio. Intuição-arrepio. Arrepio enquanto intuição que não sabe o destino, desconhece os fins, as finalidades, mas é tão intensa em si própria que isso já faz bastar sua existência. Resgatar as intuições para eletrocutar o corpo novamente. Para vermos onde dá brilho, onde - em nós, em nosso encontro - a faísca existe, respira e incendeia.